quinta-feira, 13 de março de 2014

Ser ou não Ser... Elas!



Sabe-se lá quando me desprendi de Mim para tentar ser Elas. Talvez, quando Elas passaram a fazer mais parte das construções dos sonhos. Dos meus sonhos? Nem sempre. Mais precisamente, do sonho coletivo. Quando Elas entraram pelas portas principais dos desejos, ilusões e paixões.
Neste momento em que abri as janelas da "realidade", abri os olhos e eles estavam embaçados. A partir de então, nunca mais foram os mesmos. Meu dedo pálido e trêmulo apontou para a direção. Eu digo, A Direção. E se manteve, ali, apontando, tentando alcançar, ao menos, com a ponta dos dedos o que era Delas.
O dedo, ainda apontado, afastava-se. E quanto mais apontava, mais distante se tornava a realidade. Ou a ilusão. Ou ambos. Ah! Todas elas já se confundem em mim. Já me embaralharam como cartas em um jogo e as definições... Bem, as definições já não definem mais.
Sabe-se lá quando foi.
Sabe-se lá quando vai.
Sabe-se lá quando essa realidade ilusório - ou ilusão real - sairá e desistirá de massacrar minha cabeça.
Não quero mais ser Elas. Mas como parar de querer quando vivemos com todos querendo por nós?

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Ela não é



Rodeada de amigos, de danças, de canções com seu nome, amores, amados, transados, na rua, na Augusta. O telefone toca de terça à domingo. Nem atende mais. A campainha toca. Um, dois, três, dez baseados. Cervejas gelando. Todos os dentes se mostram para ela. Ela é. Ela foi. Ela não é mais. Nada é. Nada mais é para ela. Sem amigos, danças, canções, sem nomes, amados, amores ou Augusta. Sem toques, baseados ou dentes. Ela olha para o lado. Chora. Não é mais. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Viver a Morte... Matar a Vida



A sala de jantar ecoava pequenos ruídos mortos de garfos sobre o prato. As quatro pessoas não tão famintas guiavam os garfos automaticamente para a boca, repousavam-no no prato. Automático boca, repouso prato. Automático boca, repouso prato. Assim, desta maneira que, todos os dias, a família Gouveia fazia suas refeições. Desta forma, também, eles se banhavam, dormiam, repousavam, trabalhavam... de maneira morbidamente gelada. Automática.
Apenas uma única - única mesmo - e exclusiva coisa habitava a mente da estranha família Gouveia: a morte.
Sim, a morte.
Por que? 
Oras, não se sabe ao certo o porquê. Sabe-se apenas que louvavam a morte como ingrediente principal para se levar a vida. O acontecimento crucial e inevitável... a importância de nossa única certeza... o preparo para o fim desconhecido... inúmeros motivos rondavam a cabeça dos que os observavam de fora.
No entanto, os Gouveia não compartilhavam sua estranheza. Apenas viviam para a morte, dando satisfações introspectivas, apenas para si mesmos e seus respectivos fins.
Assim, sem acréscimos ou subtrações, era a vida da Família Gouveia.
Em uma determinada tarde esbranquiçada de Outubro, na sala de jantar, os garfos, insistentes, ecoavam ruídos sobre os pratos. Em silêncio, os Gouveia almoçavam. E, então, repentinamente, um grande estrondo intruso atingiu os ouvidos da família. Aproximando-se, o som invadia a alma de cada um dos quatro, atravessando a mesa, os talheres mortos e os pratos meio-vazios. Pela primeira vez na vida, eles se olharam. Olharam-se espantados. Cruzaram os olhares, as almas... Tiveram medo. Em frações de segundos o estrondo se aproximava. Aquele momento, de alguma maneira, guiou-os a algumas pequeninas fagulhas de vida sem que, por nenhum momento daqueles minúsculos segundos, a morte estivesse presente... Durou apenas isso... alguns pequenos segundos.
A última visão de cada um dos quatro foi o farol do caminhão que, descontrolado, arrombava as paredes da casa, despedaçando, com o cimento, aqueles únicos e últimos olhares.
A velha amiga da Família Gouveia veio lhes tocar. Levando-lhes de presente, finalmente, a vida. A morte levou-lhes a vida. Mesmo que por frações de segundos, os Gouveia avistaram em sua tão querida morte, sua real importância: louva-se a morte, apenas e somente por conta da infinita beleza que é viver.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Frio



Eu achei que tinha perdido meu coração.
Achei que o vento o tinha levado, junto de minhas dores,
o que o tempo e os amores plantam em nós.
Me estagnei em mim mesma por um tempo,
como se o meu corpo estivesse congelado
para que minha alma pudesse ter um tempo de reflexão, de descanso.
Para que nenhum fato exterior viesse cutucar aqueles momentos de auto-conhecimento.

No entanto, passou do ponto;
o tempo me atropelou e eu não pude mais enxergar...
Meu coração, pouco a pouco, foi mesmo congelando,
Sem que eu percebesse, sem que eu pudesse remediar.
Foi tomando cada parte de mim, cada membro;
Todos congelados, estarrecidos e mudos.

Em pequenos passos, me perdi em mim mesma.
Não consegui mais segurar a ponta da corda para me salvar,
e fui, desperdiçando cada pedaço de mim...
Fui, sem volta
e sem fim.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Jaula de concreto



Às vezes eu tenho a impressão de que a cidade é uma grande jaula de concreto. Uma jaula enorme, com muitos caminhos e estradas, mas sem saída alguma. Cheia de pessoas cercadas por si mesmas e por suas invenções e construções. Uma jaula recheada com a pretensão dos seres humanos, com a convicção de que nossas criações superam as da natureza. Damos, quase que por caridade, um espacinho para uma árvore ou outra. Olho para todas essas homéricas construções e quero além. Mas não consigo. Esse mar de concreto é tão finito que não consigo me desvencilhar desse emaranhado de buzinas, cimento, luzes, vozes, passos e céu sem estrelas. A cidade é tão finita que faz seu próprio céu; esconde as estrelas com a fumaça que ela mesma criou. É, é uma jaula de concreto e fumaça. Não me leva além, não desperta minha essência. E, se um dia, essa jaula se destruísse, e todas as suas arquiteturas virassem pó, nada daquilo iria se refazer. A cidade não renasce, como a natureza. O tempo a desgasta e ela, então, pode até ser reconstruída, com algum esforço humano. Mas a natureza, em toda sua infinitude, precisa apenas dela própria pra renascer; um tanto de água com outro tanto de Sol. Renasce, eternamente... não se desgasta com o passar do tempo. Ela recria, amplia... Ah... Se eu pudesse achar a saída desse labirinto de concreto e ser livre na imensidão infinita. Ah, se eu pudesse...

domingo, 9 de janeiro de 2011

Janelas da alma




Existem certos momentos na vida em que a realidade pulsa... e pulsa bem na beirada das janelas de nossa alma. A realidade bate, insistente, no vidro. Até o momento em que não aguentamos mais... abrimos as janelas e aquela correnteza gelada de vento, carregada de verdades, nos penetra de uma só vez. Nos gela a alma. Esta fica engasgada. E como doem as realidades... corroem, fazem a alma se desmantelar.
Até que, de tanto martírio, a alma vai se recompondo quase que por obrigação. As verdades começam a ficar costumeiras para nossos olhos e não nos parecem mais tão dolorosas. As soluções, então, passam a dar os primeiros toquinhos: - toc, toc, toc!, no vidro das janelas. E, como uma brisa gostosa de um fim de tarde de verão, as soluções vão entrando refrescantes pela janela... confortando nossa alma.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Rejeição dourada




Eu podia ver as fivelas douradas da sandália cor-de-rosa bebê refletirem no meu rosto gordinho e molhado. As últimas imagens que tenho de mamãe são essas. Tudo, tudo... dourado.
A aliança era dourada quando - me pegando no colo com certo esforço -  mamãe cravava o anel de recém casada em minhas dobrinhas de criança obesa. Lembro-me que me colocou na escada de madeira marrom com um resquício de verniz tímido e calejado. O jardim se estendia em frente à casa como uma imensidão verde que, após eu ser acomodado às escadas com uma carta na mão, a imensidão se tornava homérica entre mamãe e eu. Eu via as fivelas douradas da sandália cor-de-rosa bebê. Elas brilhavam junto à aliança dourada.
Hoje, lembro de minha mãe dourada. Mas não lembro de seu rosto, nem de seu cabelo, muito menos de seu cheiro. Lembro-me do cheiro das flores. As flores que estavam no jardim da casa quando mamãe se afastava. Elas exalavam um cheiro calmo e macio, assim como o cheiro gostoso que a chuva fazia desprender da terra, como se quisessem me tranquilizar daquela dor que sentia. Dor essa que muito sentia, sim senhor, mas não entendia. Hoje entendo que era a dor da rejeição. Talvez uma das piores dores que possam existir.
Estou habituado, no entanto, a senti-la. Quando mamãe me largou, naquela pensão, eu tinha apenas quatro anos. A criança obesa, sozinha, sentada na escada com verniz tímido esperando algo que não sabia o que. Só sabia que esperava. Acho que me adiantou esperar, já que uma velha roliça saiu na varanda, fitou-me como quem olha uma nova correspondência. Eu a olhei, rosado e molhado, no rosto e nas calças. Mamãe havia dito para não me levantar até que abrissem a porta da casa e viessem me apanhar. Precisei urinar. Urinei. A velha roliça abriu a porta e a urina ainda estava quente sob mim. Vi que os olhos da velha fitavam a poça que me cercava. Alguns segundos se estenderam até que ela desse mais uns passos arrastando os chinelos azuis marinho e apanhasse de minhas mãos fechadinhas a carta. Ela leu, olhou para mim, para a poça, fechou a carta, me pegou pelas mãos e entramos. Assim mesmo, sem apresentação ou cerimônia.
Entramos. Olhei para aquelas pessoas ao redor da mesa e, a meu ver pueril, parecia que ninguém se conhecia. Não se olhavam, não se falavam, não faziam questão um do outro. Nem de mim.
A velha que me pegou para criar era a dona da pensão. As outras pessoas estavam ali hospedadas até conseguirem algo melhor. Ninguém perguntou quem eu era; como se não me tivessem visto, ou mesmo como se não importasse. Simplesmente, cada um se limitava a seu pedaço de pão com manteiga. Sorriam para a dona da pensão como que para agradar e se refugiavam, cada um para o seu quarto... seus problemas, suas vidas, seus pães.
Eu nunca soube o que a carta dizia. E nem quis saber. Olhá-la me remetia àquela sensação de rejeição costumeira. Eu evitava o quanto podia. A carta e a rejeição. Eu sabia que a velha roliça era minha tia avó por parte de mãe. Sabia que, após a morte de papai, mamãe havia me deixado lá porque o novo marido não me queria interferindo na vida dos pombinhos recém apaixonados, recém casados, recém conhecidos. Então, mamãe, obedeceu. Para não criar encrenca, me deixou com Tia Doronice, a velha roliça.
Cresci na pensão de Tia Doronice. Ela me dava pães, almoço, jantar, uma caminha estreita com acolchoado xadrez e até mesmo um guarda-roupas bege. Me dava, também, moedas para a condução. E só.
As pessoas da pensão salpicavam por ali e logo iam embora. Quando eu começava a ter coragem de me aproximar de alguma, elas iam. Acho que a pensão era ruim, os quartos pequenos e Tia Doronice não era lá grande exemplo de limpeza.
Eu vivia cercado de pessoas; e do desprezo delas. Era intrigante como Tia Doronice não fazia questão de se apegar. Ela me dava o necessário, mas não se importava com minha presença ou ausência. Estava comigo porque tinha que estar. Porque não havia onde me deixar. E, assim, eu cresci. Com o almoço, jantar, pão, condução, moedas, pessoas, pão, jantar, almoço, pão, condução, moedas, jantar, pão, moedas... não!
Não queria mais todas aquelas pessoas agindo como se eu fosse indiferente ao mundo. Como se meu voto não valesse, como se meu olho não ardesse, como se meu pé não doesse. Como se eu não existisse. Já não bastava mamãe dourada não lembrar de mim? Mas, para mamãe até havia alguma explicação. Afinal, ela não me via. Não se lembrava, porque não via. Mas as pessoas da pensão, Tia Doronice, esses sim me viam e, ainda assim, não me percebiam.
Cresci, então, calado, obeso, rosado e rejeitado.
Estudei. Mas, como era obeso, não fazia parte dos círculos de amizade. Eu era o gordo excluído que triturava suas lamentações com as mandíbulas furiosas de um garoto sem abraços, sem amigos e sem amor.
Tia Doronice, como que com o intuito de me rejeitar ainda mais e me deixar deveras sozinho no mundo, morreu, mais velha e mais roliça. Mal súbito. O que é natural quando se tem já oitenta e seis anos. Não senti sua morte, pois sei que ela não sentiria a minha. Mas, respeitei. Paguei e fui ao enterro, do início ao fim. Mamãe não apareceu.
A pensão ficou para mim. Ainda com as pessoas salpicando aqui e ali. Em um quarto ou outro.
E eu continuava... continuava com a pensão de Tia Doronice, com os almoços, jantares e pães. Não. Eu não queria. Mas continuava. Bem, afinal, ao menos, agora, as pessoas sorriam para mim, como que para agradar o novo dono da pensão.
Sorriam, comiam, dormiam, acordavam, sorriam...
E eu ali, ainda rejeitado, obeso, contava as moedas e os sorrisos. E, sentado na escada, ainda esperava que se ficasse ali, poderia avistar algum outro sorriso dourado se aproximar.
Contava as moedas e os sorrisos. Contava os dias para o dia dourado, tão almejado. Contava, contava, esperava, contava... contava, por fim, meus dias rejeitados se acabarem em triste e esquecido pó acinzentado... sem amor, sem saudade, sem dourado, sem nada.