segunda-feira, 7 de julho de 2014

Pare o mundo



Não há formas de encurralar um animal livre sem, antes, dopá-lo ou tirá-lo de seu estado natural. Certas vezes, ele tem crises violentas, fere pessoas e, consequentemente, vai morrendo também um pouco de sua essência, a cada centímetro da jaula que diminui.
Ser um animal preso faz de mim uma alma que não quer mais se libertar, fugir da jaula, desfrutar o mundo... mas sim deixar de existir. Na jaula, fora dela, na vida... Simples e puramente, parar e descer.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Ser ou não Ser... Elas!



Sabe-se lá quando me desprendi de Mim para tentar ser Elas. Talvez, quando Elas passaram a fazer mais parte das construções dos sonhos. Dos meus sonhos? Nem sempre. Mais precisamente, do sonho coletivo. Quando Elas entraram pelas portas principais dos desejos, ilusões e paixões.
Neste momento em que abri as janelas da "realidade", abri os olhos e eles estavam embaçados. A partir de então, nunca mais foram os mesmos. Meu dedo pálido e trêmulo apontou para a direção. Eu digo, A Direção. E se manteve, ali, apontando, tentando alcançar, ao menos, com a ponta dos dedos o que era Delas.
O dedo, ainda apontado, afastava-se. E quanto mais apontava, mais distante se tornava a realidade. Ou a ilusão. Ou ambos. Ah! Todas elas já se confundem em mim. Já me embaralharam como cartas em um jogo e as definições... Bem, as definições já não definem mais.
Sabe-se lá quando foi.
Sabe-se lá quando vai.
Sabe-se lá quando essa realidade ilusório - ou ilusão real - sairá e desistirá de massacrar minha cabeça.
Não quero mais ser Elas. Mas como parar de querer quando vivemos com todos querendo por nós?

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Ela não é



Rodeada de amigos, de danças, de canções com seu nome, amores, amados, transados, na rua, na Augusta. O telefone toca de terça à domingo. Nem atende mais. A campainha toca. Um, dois, três, dez baseados. Cervejas gelando. Todos os dentes se mostram para ela. Ela é. Ela foi. Ela não é mais. Nada é. Nada mais é para ela. Sem amigos, danças, canções, sem nomes, amados, amores ou Augusta. Sem toques, baseados ou dentes. Ela olha para o lado. Chora. Não é mais. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Viver a Morte... Matar a Vida



A sala de jantar ecoava pequenos ruídos mortos de garfos sobre o prato. As quatro pessoas não tão famintas guiavam os garfos automaticamente para a boca, repousavam-no no prato. Automático boca, repouso prato. Automático boca, repouso prato. Assim, desta maneira que, todos os dias, a família Gouveia fazia suas refeições. Desta forma, também, eles se banhavam, dormiam, repousavam, trabalhavam... de maneira morbidamente gelada. Automática.
Apenas uma única - única mesmo - e exclusiva coisa habitava a mente da estranha família Gouveia: a morte.
Sim, a morte.
Por que? 
Oras, não se sabe ao certo o porquê. Sabe-se apenas que louvavam a morte como ingrediente principal para se levar a vida. O acontecimento crucial e inevitável... a importância de nossa única certeza... o preparo para o fim desconhecido... inúmeros motivos rondavam a cabeça dos que os observavam de fora.
No entanto, os Gouveia não compartilhavam sua estranheza. Apenas viviam para a morte, dando satisfações introspectivas, apenas para si mesmos e seus respectivos fins.
Assim, sem acréscimos ou subtrações, era a vida da Família Gouveia.
Em uma determinada tarde esbranquiçada de Outubro, na sala de jantar, os garfos, insistentes, ecoavam ruídos sobre os pratos. Em silêncio, os Gouveia almoçavam. E, então, repentinamente, um grande estrondo intruso atingiu os ouvidos da família. Aproximando-se, o som invadia a alma de cada um dos quatro, atravessando a mesa, os talheres mortos e os pratos meio-vazios. Pela primeira vez na vida, eles se olharam. Olharam-se espantados. Cruzaram os olhares, as almas... Tiveram medo. Em frações de segundos o estrondo se aproximava. Aquele momento, de alguma maneira, guiou-os a algumas pequeninas fagulhas de vida sem que, por nenhum momento daqueles minúsculos segundos, a morte estivesse presente... Durou apenas isso... alguns pequenos segundos.
A última visão de cada um dos quatro foi o farol do caminhão que, descontrolado, arrombava as paredes da casa, despedaçando, com o cimento, aqueles únicos e últimos olhares.
A velha amiga da Família Gouveia veio lhes tocar. Levando-lhes de presente, finalmente, a vida. A morte levou-lhes a vida. Mesmo que por frações de segundos, os Gouveia avistaram em sua tão querida morte, sua real importância: louva-se a morte, apenas e somente por conta da infinita beleza que é viver.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Frio



Eu achei que tinha perdido meu coração.
Achei que o vento o tinha levado, junto de minhas dores,
o que o tempo e os amores plantam em nós.
Me estagnei em mim mesma por um tempo,
como se o meu corpo estivesse congelado
para que minha alma pudesse ter um tempo de reflexão, de descanso.
Para que nenhum fato exterior viesse cutucar aqueles momentos de auto-conhecimento.

No entanto, passou do ponto;
o tempo me atropelou e eu não pude mais enxergar...
Meu coração, pouco a pouco, foi mesmo congelando,
Sem que eu percebesse, sem que eu pudesse remediar.
Foi tomando cada parte de mim, cada membro;
Todos congelados, estarrecidos e mudos.

Em pequenos passos, me perdi em mim mesma.
Não consegui mais segurar a ponta da corda para me salvar,
e fui, desperdiçando cada pedaço de mim...
Fui, sem volta
e sem fim.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Jaula de concreto



Às vezes eu tenho a impressão de que a cidade é uma grande jaula de concreto. Uma jaula enorme, com muitos caminhos e estradas, mas sem saída alguma. Cheia de pessoas cercadas por si mesmas e por suas invenções e construções. Uma jaula recheada com a pretensão dos seres humanos, com a convicção de que nossas criações superam as da natureza. Damos, quase que por caridade, um espacinho para uma árvore ou outra. Olho para todas essas homéricas construções e quero além. Mas não consigo. Esse mar de concreto é tão finito que não consigo me desvencilhar desse emaranhado de buzinas, cimento, luzes, vozes, passos e céu sem estrelas. A cidade é tão finita que faz seu próprio céu; esconde as estrelas com a fumaça que ela mesma criou. É, é uma jaula de concreto e fumaça. Não me leva além, não desperta minha essência. E, se um dia, essa jaula se destruísse, e todas as suas arquiteturas virassem pó, nada daquilo iria se refazer. A cidade não renasce, como a natureza. O tempo a desgasta e ela, então, pode até ser reconstruída, com algum esforço humano. Mas a natureza, em toda sua infinitude, precisa apenas dela própria pra renascer; um tanto de água com outro tanto de Sol. Renasce, eternamente... não se desgasta com o passar do tempo. Ela recria, amplia... Ah... Se eu pudesse achar a saída desse labirinto de concreto e ser livre na imensidão infinita. Ah, se eu pudesse...

domingo, 9 de janeiro de 2011

Janelas da alma




Existem certos momentos na vida em que a realidade pulsa... e pulsa bem na beirada das janelas de nossa alma. A realidade bate, insistente, no vidro. Até o momento em que não aguentamos mais... abrimos as janelas e aquela correnteza gelada de vento, carregada de verdades, nos penetra de uma só vez. Nos gela a alma. Esta fica engasgada. E como doem as realidades... corroem, fazem a alma se desmantelar.
Até que, de tanto martírio, a alma vai se recompondo quase que por obrigação. As verdades começam a ficar costumeiras para nossos olhos e não nos parecem mais tão dolorosas. As soluções, então, passam a dar os primeiros toquinhos: - toc, toc, toc!, no vidro das janelas. E, como uma brisa gostosa de um fim de tarde de verão, as soluções vão entrando refrescantes pela janela... confortando nossa alma.