O problema dos conservadores moralistas nem é a burrice. O problema deles é a soberba com que falam sobre a inteligência, privatizando poemas de Garcia Lorca como se fossem seus. Sem saber, coitados, pobres almas... Que o raciocínio intelectual é sobre a destruição, a desconstrução, sobre o desconsiderar, considerar e ponderar, sem nunca - nunca! - ter a paz da certeza.
Só se deleita na soberba quem aproveita do conforto da chegada. O intelecto não tem chegada, nem início e nem fim... Apenas caminha, caminha, distribuindo por aí exclamações, enquanto é diariamente perseguido por todas as andantes interrogações.
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Cale a Boca!
Homem, te peço: Cale a boca.
Homem, branco, imploro!
Homem, branco, hétero: Cale a boca!
Homem, branco, hétero, cisgênero e magro: Cale... Cale a boca.
Homem, branco, imploro!
Homem, branco, hétero: Cale a boca!
Homem, branco, hétero, cisgênero e magro: Cale... Cale a boca.
Não cale só a boca da boca,
Cale a boca da alma.
Silencie, homem...
E escute... Apenas.
Como se não tivesse ouvidos outrora.
Escute como se não tivesse mais voz.
Cale a boca da alma.
Silencie, homem...
E escute... Apenas.
Como se não tivesse ouvidos outrora.
Escute como se não tivesse mais voz.
A palavra sempre foi sua, homem.
A palavra vem sendo sua aliada.
Tenha generosidade, homem,
Doe o regozijo de tua morada.
A palavra vem sendo sua aliada.
Tenha generosidade, homem,
Doe o regozijo de tua morada.
Homem, te digo: Cale a boca
Abra a alma. Desague...
Esvazie-se de tuas palavras
E com os lábios colados, calados
Ouvindo, sentindo...
Abra a alma. Desague...
Esvazie-se de tuas palavras
E com os lábios colados, calados
Ouvindo, sentindo...
Escute chegar: Oh, é um novo mundo
Dizendo apenas: Olá.
Dizendo apenas: Olá.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
Criar
Apesar de aparentar fragilidade e muitas lágrimas transbordarem de mim, a
força que tem crescido aqui dentro é insana, imensa. É como se todos os
instintos, forças da natureza, faro animal despertassem em alta
potência.
A mulher grávida não está frágil... Ela está mais sensível, mais artística, sincera, mais autocentrada, muito mais confiante - mesmo sentindo medo a todo momento - de errar, de não beber água o suficiente ou comer frutas e verduras o bastante para nutrir o bebê.
Engraçado, como a junção de dois espíritos habitando um só corpo pode ser uma experiência, realmente, Divina, transcendente e universal.
Ter um filho dentro de nós é, de repente, se dar conta disso, profundamente, e chorar, sentindo algo incrivelmente inédito dentro do peito, que nos rasga em uma imensidão inenarrável. Nos permite virar animais quando preciso, proteger e cuidar de nós mesmas como leoas, pois agora é disso que depende sua cria... Não há falta de cuidado pessoal ou autoestima baixa que não se renda a uma gravidez rodeada de amor. É querer ouvir apenas ao seu próprio instinto e a mais ninguém, porque naquele momento parece que você sabe exatamente o que será melhor pra vocês, em cada detalhe. É conseguir estipular o seu limite de espaço. É descobrir milhares de mulheres que existiam em você e você mal fazia ideia da existência delas...
Mas, principalmente, estar grávida é como a beleza e a paciência do Sol, que nasce todos os dias e, a cada nova manhã, proporciona uma única, linda e quente sensação de eternidade.
A mulher grávida não está frágil... Ela está mais sensível, mais artística, sincera, mais autocentrada, muito mais confiante - mesmo sentindo medo a todo momento - de errar, de não beber água o suficiente ou comer frutas e verduras o bastante para nutrir o bebê.
Engraçado, como a junção de dois espíritos habitando um só corpo pode ser uma experiência, realmente, Divina, transcendente e universal.
Ter um filho dentro de nós é, de repente, se dar conta disso, profundamente, e chorar, sentindo algo incrivelmente inédito dentro do peito, que nos rasga em uma imensidão inenarrável. Nos permite virar animais quando preciso, proteger e cuidar de nós mesmas como leoas, pois agora é disso que depende sua cria... Não há falta de cuidado pessoal ou autoestima baixa que não se renda a uma gravidez rodeada de amor. É querer ouvir apenas ao seu próprio instinto e a mais ninguém, porque naquele momento parece que você sabe exatamente o que será melhor pra vocês, em cada detalhe. É conseguir estipular o seu limite de espaço. É descobrir milhares de mulheres que existiam em você e você mal fazia ideia da existência delas...
Mas, principalmente, estar grávida é como a beleza e a paciência do Sol, que nasce todos os dias e, a cada nova manhã, proporciona uma única, linda e quente sensação de eternidade.
terça-feira, 21 de abril de 2015
Ai, de mim!
Ai, que saudades de mim!
Onde será que me perdi?
Ai, de mim! Ai, de mim!
Por onde será que me deixei partir?
Por que deixei que me partissem assim?
Agora, onde estão os pedaços de mim?
Esquecidos. Embaralhados. Embaçados.
É o fim?
Ai, que saudades de mim!
Que arranquei membros vitais,
Distribuindo-os em outros corpos,
Ai, de mim! Ai, de mim!
Precisarei agora de meus velhos olhos,
Para, então, de novo encontrar
Esses pedaços espalhados por aí...
Procurarei e hei de achar!
A não ser que não os reconheça
com os mesmos olhos de outrora,
Precisarei não só de novos olhos,
Mas também de uma nova aurora.
Ai, que vontade de mim!
Onde será que me perdi?
Ai, de mim! Ai, de mim!
Por onde será que me deixei partir?
Por que deixei que me partissem assim?
Agora, onde estão os pedaços de mim?
Esquecidos. Embaralhados. Embaçados.
É o fim?
Ai, que saudades de mim!
Que arranquei membros vitais,
Distribuindo-os em outros corpos,
Ai, de mim! Ai, de mim!
Precisarei agora de meus velhos olhos,
Para, então, de novo encontrar
Esses pedaços espalhados por aí...
Procurarei e hei de achar!
A não ser que não os reconheça
com os mesmos olhos de outrora,
Precisarei não só de novos olhos,
Mas também de uma nova aurora.
Ai, que vontade de mim!
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Linhas da Vida
Me pegue pela mão, segure-a de maneira suave, doce... passe suas mãos nas palmas das minhas... e leia. Leia todas as linhas se entrelaçando, fundas ou rasas, como se pudesse ler minhas vontades, desejos, meu passado e meu futuro. Você sabe... sabe do que eu preciso. Por que então não faz? Por que não se importa em me surpreender, me matar de paixão e prazer? E se não se importa, por que não me deixa ir? Voar e mudar essas linhas que nunca mais vou deixar ninguém ler. Só você leu... e assim será, são suas. Minhas linhas são suas, passo das minhas mãos para as suas e você faz delas o que quiser. Mas não me devolva e nem me peça para entregá-las a outra pessoa. Não vou. Guarde-as em uma caixa, quem sabe. Enquanto isso eu desenho linhas novas em minhas mãos vazias. E quando você sentir saudades, abra a caixa, olhe-as, observe, reflita... se quer colocá-las em suas mãos e, então, tornar a segurar a minha para que, assim, minhas linhas se tornem nossas e nossos destinos sejam apenas um.
Poeta Embriagado
Gosto de ler os textos primeiro de traz pra frente. Primeiro a última estrofe, depois a penúltima, anti-penúltima e assim por diante. Depois dou uma passadela de olho no sentido normal e entendo perfeitamente o sentido, intenção, conceito e filosofia do texto. Parece que de trás para frente as mensagens subliminares saltam aos olhos.
Gosto de ver a TV de ponta cabeça imaginando que o queixo do ator seria o nariz e que a boca seria pra baixo. Gosto de colocar o espelho debaixo do nariz para parecer que estou andando no teto... Gosto de tudo do avesso, gosto da tontura e dos olhos embaçados. A imaginação flui, dança, sorri e desbrava esta cabecinha revirada de poetisa embriagada. SALUD!
Amo
Amo como se minha alma morresse de sede e fome. Amo como se pudesse ser dez, cem ou mil de mim mesma. Amo da única maneira que sei amar alguém: entregue, inteira, transbordada dos pés à cabeça, movida por uma constante e inconstante paleta multicolorida. Sim, uma enorme paleta repleta de lindas tintas. Agarro-a nas mãos, olho, observo... Entro em suas cores. Mergulho na azul e a pinto em seu rosto quando estou triste. Rosto, azul, tristeza, blue, dor, nu.
De repente, então, passa... Tudo passa. Passa o azul e te vejo de novo completamente nu. Fico entorpecida, apaixonada, louca.Te pinto todinho de vermelho e branco, com mil formas e beijos e mãos e faces. Mas então... Isso também passa. Fico séria, muito séria. Molho o pincel na água e te cubro da mais pura tinta preta. Nos olhos, na boca, nos poros, cotovelo, no nariz e na sola dos pés. Te deixo. Você caminha. E as manchas ficam marcadas no chão, em um caminho que eu escolhi marcar e você escolheu caminhar. Eu, então, olho o caminho marcado. Não quero. Assim não quero. Te levo para o chuveiro e toda a tinta escorre de seu rosto. Vejo seus olhos tristonhos.
Te abraço, beijo seus lábios... choro... termino de tirar toda a tinta preta. Dou o pincel em suas mãos. E volto a amar como se minha alma morresse de sede e fome. Amo como se pudesse ser dez, cem ou mil [...]
Adeus, Mutantes
Com um exagero RitaLeestico berro e me calo em fração de segundos. Paro e não paro de querer e não querer, fazer e não fazer, gozar e não gozar da vida que vou e não vou vivendo e não vivendo. Como numa mutante atmosfera mítica deixo que meu eu superior me arraste e me segure, para que minha mente não interfira mais com seus desejos do ego. Quero e não quero, escolho sem querer escolher, faço porque minha alma pede, mas meu coração sempre padece. Me deixo ir para que no fim do caminho a bifurcação seja e não seja, e que um único caminho cheinho de flores seja o único que me dê vontade de seguir. Adeus, Rita Lee. Adeus, Arnaldo. Saudades.
sábado, 27 de dezembro de 2014
Só
Sempre existe uma primeira vez - não é como dizem?
O primeiro passo, a primeira palavra, mordida, lambida no sorvete. O primeiro abraço ou o primeiro dente a cair. O primeiro beijo, o primeiro amasso... E todos esses 'primeiros' tem um gosto peculiar de magia. Como é mágica a primeira vez!
Aí então, chega um momento na vida em que, pela primeira vez, você sente vontade de beber menos, falar menos, não tem vontade de contar sobre seus rolês ou o quão divertida foi sua viagem. Pela primeira vez, essa magia se esvai. Você olha ao seu redor e nada mais parece ter aquele brilho surreal de outrora. Você passa a não aturar mais ter que agradar à todos, passa a não se importar se te acham legal ou chata. Começa a se sentir completamente fora de órbita, como se alguém dentro de você começasse a morrer. Não sabe mais onde ir, onde se encaixar... Todas as conversas parecem não ter nenhuma graça. Você se sente só. Cai na real: - Essa é minha primeira morte.
Pela primeira vez, você sente a solidão baforar em seu cangote.
Realmente, sempre achei os adultos meio solitários... Independente do tamanho da família, da quantidade de amigos ou o quanto ele fica ou não sozinho... Mas há sempre um ar de solidão, um quê de quem não tem mais os pais pra proteger e agora precisa reger a própria vida, sozinho.
E, então, eu me deparei sozinha, sem canto. Aos prantos, pensei: - Então é assim a primeira vez de um adulto.
O primeiro passo, a primeira palavra, mordida, lambida no sorvete. O primeiro abraço ou o primeiro dente a cair. O primeiro beijo, o primeiro amasso... E todos esses 'primeiros' tem um gosto peculiar de magia. Como é mágica a primeira vez!
Aí então, chega um momento na vida em que, pela primeira vez, você sente vontade de beber menos, falar menos, não tem vontade de contar sobre seus rolês ou o quão divertida foi sua viagem. Pela primeira vez, essa magia se esvai. Você olha ao seu redor e nada mais parece ter aquele brilho surreal de outrora. Você passa a não aturar mais ter que agradar à todos, passa a não se importar se te acham legal ou chata. Começa a se sentir completamente fora de órbita, como se alguém dentro de você começasse a morrer. Não sabe mais onde ir, onde se encaixar... Todas as conversas parecem não ter nenhuma graça. Você se sente só. Cai na real: - Essa é minha primeira morte.
Pela primeira vez, você sente a solidão baforar em seu cangote.
Realmente, sempre achei os adultos meio solitários... Independente do tamanho da família, da quantidade de amigos ou o quanto ele fica ou não sozinho... Mas há sempre um ar de solidão, um quê de quem não tem mais os pais pra proteger e agora precisa reger a própria vida, sozinho.
E, então, eu me deparei sozinha, sem canto. Aos prantos, pensei: - Então é assim a primeira vez de um adulto.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Livre para amar... livre para amar...
Se meus pés não estão no chão, deixe-os flutuando. Deixe-os caminhar sobre nuvens, pássaros, elefantes cor-de-rosa voadores, ou naves espaciais. Deixe aqueles meus sonhos, tão cheios de cores, girar como carrossel em torno de minha mente. Deixe-a livre para amar, livre para amar, livre para amar.
Um dia, quem sabe, um dia... volto trazendo notícias do mundo maluco. Um dia volto, sim. Mas venho trazendo um pincel mergulhado em muitíssimas cores, tão novas e vibrantes, que com uma pequena pincelada, fará reviver, finalmente, até o canto mais dorminhoco e cinza da parte de cá.
Mu-danças
A mudança é um bichinho que vem se aconchegando aos pouquinhos. Em uma noite qualquer ou não-tão-qualquer-assim, ela fica miudinha na porta do teu quarto, só observando a sua respiração debaixo do cobertor e a forma como você roça os pés um ao outro.
No outro dia ela já está nos pés da tua cama, pensando em como se aproximar sem que você desperte do profundo sono.
Quando você menos espera, ela já está debaixo do teu cobertor, dos seus cabelos e ao lado dos seus ombros fazendo cócegas que fazem até com que acorde várias vezes à noite.
Ela está ali e não há mais como expulsá-la. E então, quando vocês já se habituaram com a mútua presença, ela não atrapalha mais seu sono, nem te faz cócegas. Apenas está ali, confrontando as leis da física: dois seres habitando o mesmo espaço, na mesma e exata fração de segundo. De repente, você não sente mais vontade de fazer as mesmas coisas, aceitar os mesmos atos, seguir a mesma estrada já marcada de tantas idas e vindas... Simplesmente, mudou...
Ditadura da Beleza
Nunca tive coragem de conversar abertamente sobre a maldita ditadura da magreza. Sempre foi um assunto que evitava falar por mais de dez minutos. Dava uma opinião superficial e logo fazia uma piada sobre qualquer outra coisa. Fim de assunto, próxima página. Pensemos em algum regime eficaz, várias noites chorando no travesseiro e pronto.
Hoje... Bem, hoje estou no padrão? Não! Aliás estou bem longe dele. Acima do peso, cabelos enrolados e não tão bem tratados assim, dentes nem um pouco retos, pele marcada, etc.
A cada vez que ouvia uma piada sobre mulheres gordinhas, ou comentários sobre as magrinhas ou gostosonas: - Meu Deus do Céu! Isso é que é Mulher! - o meu coração sentia uma dor profunda. Sangrava. Sentia uma homérica decepção comigo mesma, com a minha estrutura de corpo e a minha "falta de esforço".
E, então, surgiam as clássicas consequências que todas - sim, todas - as mulheres sofrem. Como às vezes ficar dias sem comer, e depois comer descontroladamente. Remédios ou produtos que te façam perder peso. Vomitar. Ficar feliz ao ter uma caganeira porque "pelo menos estou emagrecendo". Sempre em uma busca absurda por uma piada a menos na boca de alguém, ou por um elogio: - Como você emagreceu... Agora sim está bem mais bonita! - Meu Deus! Vocês não têm noção a dor que é se culpar por quem você é. Lamentar por ainda não ser aquilo que você ouve da boca das pessoas a todo momento: - Tão bonita fulana, tão magrinha, né? - Ou mesmo evitar o clássica: - Ciclana era tão linda, mas deu uma engordadinha. Coitada!
Sempre que uma frase dessa é emitida, a cuca de uma garota entra em colapso em algum lugar do mundo, rs.
Porém... por esses dias algo de surreal acontece comigo. Um amor leve, fácil e muito bonito percorre em minha alma. Me olho no espelho, sorrio e me reconheço. Gosto tanto do que vejo, cada centímetro do que envolve meu espírito nesta Terra. E de repente me vem uma vontade maluca de sair gritando aos sete ventos: - Libertem-se, mulheres! Queimem essa revistas! Mandem essas pessoas calarem a boca e se reconheçam! Vocês são lindas como são!
Chega de apegos. Chega dessa vaidade tão inútil.
Como é bom libertar a alma, o corpo, a mente... Como é bom sentir um pouquinho do gosto da liberdade. Como é bom... viver.
Aconchego pré-sono
Acho que o momento mais gostoso entre um casal não é aquele beijo cheio de saudades, o sexo da reconciliação ou aquelas cenas deliciosas de risadas enquanto preparam um jantar juntos. Todos esses momentos são, de fato, deliciosos... mas, eu só definiria como, realmente e exclusivamente extasiante, um único momento:
Ambos muito cansados. Cada um pega o seu travesseiro, afofam-no com a mão, posicionam um do lado do outro. Deitam... alguns segundos em silêncio, com as pernas semi enroladas e um braço já adormecendo por conta da cabeça do outro encostada em cima. Os dois, então, não se beijam, mas, lentamente enquanto começam a conversar baixinho, as faces vão se aproximando como que por magnetismo. A conversa é sustentada apenas pelos corpos exaustos e as vozes cansadas, pelo sono e a bobeira que ele nos traz ou o quentinho da pele e do cobertor. Aquela conversa quase em silêncio... Até que um dos dois adormeça no meio da conversa e o outro perceba pela respiração pesada e, então, plenamente tranquilo adormece também.
Essa situação, com toda certeza, é a mais extasiante experiência que o amor nos proporciona... o aconchego pré-sono.
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Pare o mundo
Ser um animal preso faz de mim uma alma que não quer mais se libertar, fugir da jaula, desfrutar o mundo... mas sim deixar de existir. Na jaula, fora dela, na vida... Simples e puramente, parar e descer.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Ser ou não Ser... Elas!
Sabe-se lá quando me desprendi de Mim para tentar ser Elas. Talvez, quando Elas passaram a fazer mais parte das construções dos sonhos. Dos meus sonhos? Nem sempre. Mais precisamente, do sonho coletivo. Quando Elas entraram pelas portas principais dos desejos, ilusões e paixões.
Neste momento em que abri as janelas da "realidade", abri os olhos e eles estavam embaçados. A partir de então, nunca mais foram os mesmos. Meu dedo pálido e trêmulo apontou para a direção. Eu digo, A Direção. E se manteve, ali, apontando, tentando alcançar, ao menos, com a ponta dos dedos o que era Delas.
O dedo, ainda apontado, afastava-se. E quanto mais apontava, mais distante se tornava a realidade. Ou a ilusão. Ou ambos. Ah! Todas elas já se confundem em mim. Já me embaralharam como cartas em um jogo e as definições... Bem, as definições já não definem mais.
Sabe-se lá quando foi.
Sabe-se lá quando vai.
Sabe-se lá quando essa realidade ilusório - ou ilusão real - sairá e desistirá de massacrar minha cabeça.
Não quero mais ser Elas. Mas como parar de querer quando vivemos com todos querendo por nós?
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Ela não é
Rodeada de amigos, de danças, de canções com seu nome, amores, amados, transados, na rua, na Augusta. O telefone toca de terça à domingo. Nem atende mais. A campainha toca. Um, dois, três, dez baseados. Cervejas gelando. Todos os dentes se mostram para ela. Ela é. Ela foi. Ela não é mais. Nada é. Nada mais é para ela. Sem amigos, danças, canções, sem nomes, amados, amores ou Augusta. Sem toques, baseados ou dentes. Ela olha para o lado. Chora. Não é mais.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Viver a Morte... Matar a Vida
Apenas uma única - única mesmo - e exclusiva coisa habitava a mente da estranha família Gouveia: a morte.
Sim, a morte.
Por que?
Oras, não se sabe ao certo o porquê. Sabe-se apenas que louvavam a morte como ingrediente principal para se levar a vida. O acontecimento crucial e inevitável... a importância de nossa única certeza... o preparo para o fim desconhecido... inúmeros motivos rondavam a cabeça dos que os observavam de fora.
No entanto, os Gouveia não compartilhavam sua estranheza. Apenas viviam para a morte, dando satisfações introspectivas, apenas para si mesmos e seus respectivos fins.
Assim, sem acréscimos ou subtrações, era a vida da Família Gouveia.
Em uma determinada tarde esbranquiçada de Outubro, na sala de jantar, os garfos, insistentes, ecoavam ruídos sobre os pratos. Em silêncio, os Gouveia almoçavam. E, então, repentinamente, um grande estrondo intruso atingiu os ouvidos da família. Aproximando-se, o som invadia a alma de cada um dos quatro, atravessando a mesa, os talheres mortos e os pratos meio-vazios. Pela primeira vez na vida, eles se olharam. Olharam-se espantados. Cruzaram os olhares, as almas... Tiveram medo. Em frações de segundos o estrondo se aproximava. Aquele momento, de alguma maneira, guiou-os a algumas pequeninas fagulhas de vida sem que, por nenhum momento daqueles minúsculos segundos, a morte estivesse presente... Durou apenas isso... alguns pequenos segundos.
A última visão de cada um dos quatro foi o farol do caminhão que, descontrolado, arrombava as paredes da casa, despedaçando, com o cimento, aqueles únicos e últimos olhares.
A velha amiga da Família Gouveia veio lhes tocar. Levando-lhes de presente, finalmente, a vida. A morte levou-lhes a vida. Mesmo que por frações de segundos, os Gouveia avistaram em sua tão querida morte, sua real importância: louva-se a morte, apenas e somente por conta da infinita beleza que é viver.
No entanto, os Gouveia não compartilhavam sua estranheza. Apenas viviam para a morte, dando satisfações introspectivas, apenas para si mesmos e seus respectivos fins.
Assim, sem acréscimos ou subtrações, era a vida da Família Gouveia.
Em uma determinada tarde esbranquiçada de Outubro, na sala de jantar, os garfos, insistentes, ecoavam ruídos sobre os pratos. Em silêncio, os Gouveia almoçavam. E, então, repentinamente, um grande estrondo intruso atingiu os ouvidos da família. Aproximando-se, o som invadia a alma de cada um dos quatro, atravessando a mesa, os talheres mortos e os pratos meio-vazios. Pela primeira vez na vida, eles se olharam. Olharam-se espantados. Cruzaram os olhares, as almas... Tiveram medo. Em frações de segundos o estrondo se aproximava. Aquele momento, de alguma maneira, guiou-os a algumas pequeninas fagulhas de vida sem que, por nenhum momento daqueles minúsculos segundos, a morte estivesse presente... Durou apenas isso... alguns pequenos segundos.
A última visão de cada um dos quatro foi o farol do caminhão que, descontrolado, arrombava as paredes da casa, despedaçando, com o cimento, aqueles únicos e últimos olhares.
A velha amiga da Família Gouveia veio lhes tocar. Levando-lhes de presente, finalmente, a vida. A morte levou-lhes a vida. Mesmo que por frações de segundos, os Gouveia avistaram em sua tão querida morte, sua real importância: louva-se a morte, apenas e somente por conta da infinita beleza que é viver.
sábado, 31 de dezembro de 2011
Frio

Eu achei que tinha perdido meu coração.
Achei que o vento o tinha levado, junto de minhas dores,
o que o tempo e os amores plantam em nós.
Me estagnei em mim mesma por um tempo,
como se o meu corpo estivesse congelado
para que minha alma pudesse ter um tempo de reflexão, de descanso.
Para que nenhum fato exterior viesse cutucar aqueles momentos de auto-conhecimento.
No entanto, passou do ponto;
o tempo me atropelou e eu não pude mais enxergar...
Meu coração, pouco a pouco, foi mesmo congelando,
Sem que eu percebesse, sem que eu pudesse remediar.
Foi tomando cada parte de mim, cada membro;
Todos congelados, estarrecidos e mudos.
Em pequenos passos, me perdi em mim mesma.
Não consegui mais segurar a ponta da corda para me salvar,
e fui, desperdiçando cada pedaço de mim...
Fui, sem volta
e sem fim.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Jaula de concreto
Às vezes eu tenho a impressão de que a cidade é uma grande jaula de concreto. Uma jaula enorme, com muitos caminhos e estradas, mas sem saída alguma. Cheia de pessoas cercadas por si mesmas e por suas invenções e construções. Uma jaula recheada com a pretensão dos seres humanos, com a convicção de que nossas criações superam as da natureza. Damos, quase que por caridade, um espacinho para uma árvore ou outra. Olho para todas essas homéricas construções e quero além. Mas não consigo. Esse mar de concreto é tão finito que não consigo me desvencilhar desse emaranhado de buzinas, cimento, luzes, vozes, passos e céu sem estrelas. A cidade é tão finita que faz seu próprio céu; esconde as estrelas com a fumaça que ela mesma criou. É, é uma jaula de concreto e fumaça. Não me leva além, não desperta minha essência. E, se um dia, essa jaula se destruísse, e todas as suas arquiteturas virassem pó, nada daquilo iria se refazer. A cidade não renasce, como a natureza. O tempo a desgasta e ela, então, pode até ser reconstruída, com algum esforço humano. Mas a natureza, em toda sua infinitude, precisa apenas dela própria pra renascer; um tanto de água com outro tanto de Sol. Renasce, eternamente... não se desgasta com o passar do tempo. Ela recria, amplia... Ah... Se eu pudesse achar a saída desse labirinto de concreto e ser livre na imensidão infinita. Ah, se eu pudesse...
domingo, 9 de janeiro de 2011
Janelas da alma

Existem certos momentos na vida em que a realidade pulsa... e pulsa bem na beirada das janelas de nossa alma. A realidade bate, insistente, no vidro. Até o momento em que não aguentamos mais... abrimos as janelas e aquela correnteza gelada de vento, carregada de verdades, nos penetra de uma só vez. Nos gela a alma. Esta fica engasgada. E como doem as realidades... corroem, fazem a alma se desmantelar.
Até que, de tanto martírio, a alma vai se recompondo quase que por obrigação. As verdades começam a ficar costumeiras para nossos olhos e não nos parecem mais tão dolorosas. As soluções, então, passam a dar os primeiros toquinhos: - toc, toc, toc!, no vidro das janelas. E, como uma brisa gostosa de um fim de tarde de verão, as soluções vão entrando refrescantes pela janela... confortando nossa alma.
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